Cartas do Gestor – Novembro 2022

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Prezado(a)s amigo(a)s e investidore(a)s,

Novembro só não foi pior para ativos brasileiros (o real se desvalorizou 0,7% contra o dólar; o Ibovespa caiu 3%; o IRF-M, índice de renda fixa da Anbima, perdeu 0,8%) porque o apetite a risco global teve uma forte recuperação. O ETF de ações de países emergentes (VWO) subiu mais de 14% no mês, enquanto o dólar americano perdeu 4% contra uma cesta de moedas de países exportadores de commodities.

Esses números evidenciam as mudanças nas percepções quanto aos cenários global e local. No mundo, a combinação de sinais de reabertura da China com queda no petróleo e consolidação da taxa dos Fed Funds ao redor de 5% no final do ciclo ajudaram a afastar os ativos do quadrante de estagflação. No Brasil, como imaginávamos, a construção do orçamento de 2023 para comportar as promessas de campanha e contornar as restrições legais levou a muito ruído e a uma reprecificação, ao menos temporária, do risco-país e, por consequência, dos juros futuros e da bolsa.

A perspectiva de restrições sanitárias menos draconianas na China reverteu a impressão pessimista que seguiu o congresso do Partido Comunista, em outubro. Ainda que o caminho para a retomada completa do setor de serviços passe por períodos, como o atual, de menor movimentação de pessoas, está ficando claro que não há mais a intenção de adotar medidas como lockdowns em massa.

Entre hoje e uma retomada mais consistente estão meses e a necessidade de aprofundar a vacinação da população, mas a intenção aparente de caminhar para repetir o caminho de normalização seguido pela grande maioria dos países ao longo de 2021 e 2022 amenizou o risco percebido de uma recessão global em 2023.

Nos EUA, as moderações na atividade e preços devem ao menos permitir que o Fed interrompa o ciclo de alta dos juros ao redor de 5% para avaliar o cenário de médio prazo. Parece claro que a volta da inflação para a meta de 2% será gradual, e, por ora, a trajetória precificada para 2023 não parece incompatível com esse objetivo. Ao menos o viés para a trajetória futura dos juros deixou de ser unicamente na direção de taxas mais altas.

No Brasil, a condução da política econômica no próximo governo permaneceu indefinida. Cabe aqui separar as discussões entre curto e médio prazo. No curto prazo, qualquer governo eleito teria que passar pela negociação com o Congresso do mecanismo que permitirá, em 2023, contornar o limite imposto pelo teto de gastos constitucional para, ao menos, não reduzir os valores atuais de transferências para famílias pobres. Esse processo estaria sujeito (novamente, sob qualquer governo) a “vazamentos” para o aumento de outras despesas, de forma que os números mais realistas que estão sendo considerados para o gasto extra-teto em 2023 (de R$100 bi a R$150 bi) não são suficientes, na nossa visão, para uma mudança no cenário geral para 2023 com relação ao que já sabíamos no início do mês.

Em nossa opinião, o que determinará se o Banco Central poderá cortar a Selic em 2023 até próximo ao precificado no final de outubro (e nossa projeção, ao redor de 10%) será o comportamento da taxa de câmbio. Com o dólar aparentemente esgotando a tendência de valorização global, as commodities sustentando um déficit em conta corrente facilmente financiável (2%-3% do PIB) e os juros locais altos, o principal determinante de médio prazo para o real deve mesmo ser a evolução do risco-país, dada, sobretudo, pelas perspectivas fiscais.

Seguimos vendo como cenário mais provável a reconstrução de uma âncora fiscal aceitável pelo mercado, simplesmente por não enxergarmos no governo eleito disposição ou condições políticas/institucionais para levar esse abandono até as últimas consequências (i.e. embarcar em uma versão brasileira da “Erdoganomics”, a política de repressão financeira praticada atualmente na Turquia). Essa construção, porém, deverá consumir ainda vários meses e seguirá dando margem para volatilidade no mercado.

Obrigado,

Luciano Sobral, economista-chefe da Neo.

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