Prezado(a)s amigo(a)s e investidore(a)s,
Após um mês de muitas oscilações de manchetes e mercados, a guerra no Oriente Médio segue sem uma resolução visível e o preço do barril de petróleo fechou o mês muito próximo de onde começou, ao redor de US$120 (Brent) e US$101 (WTI). Esses preços têm sido gradativamente incorporados nas projeções de inflação dos analistas de mercado e bancos centrais que, no geral, enxergam efeitos de segunda ordem limitados e a dissipação do choque nos índices de preços dentro horizonte padrão dos modelos, de cerca de um ano.
Essa relativa tranquilidade nas projeções centrais, porém, esconde o acúmulo de riscos na direção do preço de petróleo temporariamente muito mais alto (analistas de commodities têm enfatizado o imperativo dos limites impostos pelos estoques físicos – “Bancos centrais não podem imprimir moléculas”, nas palavras do estrategista da Carlyle Jeff Currie) e das consequentes disrupções na atividade econômica que restrições de oferta poderiam causar.
A maior parte dos bancos centrais que acompanhamos segue “esperando para ver”, ainda que vários tenham levantado em suas comunicações mais recentes a possibilidade de altas de juros. O banco central americano é uma exceção, com uma maioria confortável do FOMC mantendo o viés para cortes de juros no futuro.
A postura mais acomodativa do FOMC e a percepção renovada de que a política americana é errática demais para o país ser um porto seguro inconteste podem ajudar a explicar mais uma rodada de desvalorização do dólar. Novamente, o real esteve entre os destaques positivos, acumulando valorização de 5% no mês e voltando abaixo de R$5,0/US$.
No Brasil, o Copom novamente cortou a taxa Selic de forma gradual e seguiu com o discurso de “calibração”, ainda que reconhecendo que o total do ajuste possa ser revisto com o novo adiamento na convergência da inflação para a meta. Com isso e uma nova revisão para cima nas nossas projeções de inflação (agora em 5,3% para 2026 e 4,0% para 2027), acreditamos que o afrouxamento monetário prosseguirá a conta gotas, com a Selic chegando a 13,25% no final do ano e a média do ano não muito diferente de 2025, pouco acima de 14%.
Por ora, a mudança de perspectiva na trajetória dos juros ainda não abalou a atividade econômica doméstica. Os números de 2026 até agora são compatíveis com nossa projeção de crescimento do PIB ao redor de 2%. Também aqui, por trás dos números principais está uma economia crescentemente desbalanceada, na qual o governo tenta ajudar consumidores de baixa renda e empresas do seu interesse e o restante da economia convive com as consequências no custo de financiamento, que continuará alto por mais tempo do que se imaginava.
Não tivemos novidades nas pesquisas eleitorais publicadas em abril, que seguem mostrando uma eleição altamente polarizada e disputada. Estamos entrando no período no qual a popularidade do governo deveria começar a se beneficiar das ações de estímulo à economia, mas essa regularidade pode ser anulado pelos efeitos da guerra em preços de alta visibilidade, como combustíveis e alimentos. Essa resultante deve ser o principal condutor dos movimentos de intenção de voto até o início oficial das campanhas.
Obrigado,
Luciano Sobral, economista da Neo.
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